Dia 10:
Chegamos na alfandega/aduana as 11hs. Uns 50 metros depois começou o rípio (RÍPIO DE ARREPIANTE).
Ínicio do rípio 50 metros adiante (logo após a alfandega)
Não foi por falta de aviso (vide placa amarela)
Um pedacinho da estradinha de rípio.
Subimos até 4.800 m.s.n.m (metros sobre o nível do mar), andando por estradas sinuosas de areia e pedras soltas, vento forte, abismo para todo lado, um frio desgraçado e gêlo nas encostas, onde cada metro era conquistado com 10 tombos (sem cair, só o susto), mas a moto escorregava e rebolava o tempo todo (se não sou de circo, já era). Quando já estavamos descendo (4.500 m.s.n.m) a moto do Sandro escorregou, atolou no rípio e ... tchan, tchan, tchan....chão.
Olhem a altura na placa.
Eu encostado na parede de gêlo.
Idem.
O bonitão logo após a queda (a tartaruga dele não aparece na foto)
Tentando consertar a moto, antes de eu sair atrás de ajuda.
Após a chegada na aduana/alfândega argentina, com os amigos que prestaram socorro (já de noite). Reparem a envergadura das árvores (vento fortíssimo).
Mais uma vez só o orgulho dele ferido, mas a moto não quis mais ligar (se revoltou) pois entrou óleo no pistão. Empurra daqui, empurra dali (quase 350kg) o ar comecou a faltar nos pulmões e a dar tonturas (sensação muito ruim, pois começamos a ficar meio "léle"). Faltou uma chave de vela (bujita) nº 14 que o bonitão não tinha e aí o "bicho pegou", ou melhor PIOROU a situação. Nesse caminho só passam uns 10 carros/motos por dia (os loucos). Legal, ne? Depois que ele apertou o botão de rastreamento (informando que estava bem e que precisava de ajuda mecânica) achando que a mamãe ia levar suquinho de laranja e o amigo Wagner ia aparecer com as ferramentas lá no alto. Combinamos que ele ficaria e eu iria atrás de ajuda (nem sei mais se para ele ou para mim). Após rodar uns 35km, morro abaixo e acima, encontrei um carro da construtora da estrada (início do asfaltamento... já fizeram uns 5 metros, só faltam os outros outros 198km), onde expliquei a situação para os ocupantes da pick-up e solicitei ajuda. Eles solicitarem que eu fosse na frente guiando.
Dei meia volta e toquei morro acima.... quando olhei para trás, cadê os desgraçados... haviam sumido. Esperei um pouco e retornei uns 10 km atrás deles, quando passaram por mim em desabalada carreira morro acima. Tentei segui-los, sem sucesso... lembrem-se que eu estava de moto no rípio e eles conhecem
bem o caminho. Voltei atrás de ajuda e encontrei um posto avançado da gendameria (policia) com 3 policiais, um deles fardado (meio abestalhado). Os outros 2 me deram água (quentíssima, que não consegui beber) e fizeram contato, por rádio, com sua base que ficava na alfândega/aduana argentina, mais adiante, informando a situação. Me disseram que só poderiam prestar socorro se houvessem vitimas e que eu deveria ir até essa base buscar ajuda (só mais 20km de rípio e 40km de estrada asfaltada). Moleza para quem estava cansado, "resfolegando", com fome, com sede e preocupado com os amigos. E lá fui eu aos trancos e barrancos (sem trocadilho, pois se desse mole o vento me jogava no abismo ou contra as paredes de pedra e gêlo do morro - bem que ele tentou). Mas o que são 4.000 m.s.n.m para quem foi PQD, só que nunca havia saltado de moto e sem paraquedas (ia ser a minha primeira experiência).
Quando cheguei ao posto da fronteira, todos os funcionários da alfandega, da aduana e da polícia estavam do lado de fora me esperando, como seu eu fosse um heroi ou, mais provavelmente, um LOUCO. Contei a façanha e o problema. Foram solícitos e colocaram um carro à disposição para ir buscar as pessoas, mas que não poderiam trazer a moto. Disse que esperassem um pouco e, se fosse o caso, fossem buscá-los e enfiassem o pé na moto e a jogassem no abismo (depois era problema do seguro).
O policial entrou em contato, por radio, com o carro da empresa que foi ajudar, sendo informado que já estavam no local e iriam rebocar a moto (puxando).
Fiquei horas esperando e segurando o carro da policia que tinha ficado a disposição (não deixei o carro da policia sair de lá até estar confirmado que o socorro estava mesmo sendo prestado). Eles só chegaram às 20hs na alfândega/aduana sendo rebocados. Segundo o Sandro, durante o reboque, ele só caiu mais 3 vezes, 2 para direita e uma para a esquerda (o cara é bom mesmo, diria até que é um "profissional da queda" e só quebrou metade da moto). Ele está me ensinando, na prática, como cair e eu não consigo aprender de jeito nenhum (como sou burrinho). Enfim, chegaram e o Sandro que estava estava mais sujo que pau de galinheiro se ajoelhou aos pés dos socorroristas agradecendo a ajuda, tirou fotos, deu uma bandeira do Brasil e convidou-os para jantar, já que não queriam dinheiro (ai já é outra estoria que eu conto depois).
Fizeram a alfândega/aduana argentina e sentado na moto, toca o Sandro a remar com os pés a moto em direção a germanderia, só 2 km adiante, para guardar a moto.
4.800 m.s.n.m, vento fortíssimo, gêlo e frio de rachar, falta de ar, tonteira, abismo e ripio.... Quem me convidar para um outro "passeio" destes no tal de rípio, pode considerar, de antemão, a mãe xingada.




















